ENTREVISTA – A jornalista e pesquisadora Ana Brambilla fala sobre as peculiaridades do Jornalismo Colaborativo no Brasil.

Muito se tem falado sobre as práticas colaborativas recentemente. O mais interessante disso tudo é que a “prática colaborativa” é um procedimento que acompanha a Internet desde sua criação e, de certa maneira, é a essência da Filosofia Hacker. A grande questão é que, há algum tempo, com o sucesso das conexões de bandalarga, o barateamento dos aparatos para conexão e a projeção mundial que a web alcançou, o termo ‘colaborativo’ tornou-se um chamariz de pessoas e, obviamente, de anunciantes.

Esse chamariz de pessoas acontece pelo fato de os sites que apregoam o termo serem, em 99% dos casos, ambientes onde a participação do usuário é bem-vinda e, em alguns casos, necessária. Assim, com a possibilidade de fazer parte de algo maior, de ser lido (e até respeitado), sem a necessidade de ser um especialista ou jornalista, muitas pessoas aderem às ondas do ‘colaborativismo’. Alguns sites usam esta vontade das pessoas de participar de um jeito muito especial, ajudando-as a escrever, acompanhando sua produção, fazendo uma espécie de tutela, enquanto outros simplesmente abrem o espaço e deixam a bola rolar para ver o que acontece.

O maior problema é que, na maior parte das vezes, estes sites usam o material enviado pelos colaboradores como matéria-prima para seus trabalhos e a partir daí não há mais qualquer trato quando à produção intelectual dos colaboradores. Este tipo de prática não é comum somente em portais que vêm explorando os processos colaborativos atrelados à prática jornalística, mas é comum também nos mais variados tipos de ambientes onde a participação é esperada.

Inspirado nessas questões, MEIO DIGITAL entrevistou a jornalista e pesquisadora Ana Brambilla*. Confira a entrevista logo abaixo:

MEIODIGITAL: O sucesso de OhMyNews muito se dá pela idéia inovadora e pela qualidade do programa que gere todo o site, mas, o nível educacional da Coréia do Sul, associado ao seu desenvolvimento tecnológico e ao senso amadurecido de participação social são a sustentação do site. Como você vê este tipo de entrelaçamento de fatores num país tão marcado por diversidades culturais naturais e artificiais (distribuição de renda, etc.)?

ANA BRAMBILLA: Imagino que estejas falando do Brasil, certo? Bom, eu diria que, justamente em função dessa diversidade cultural, étnica, social, enfim, é que temos um ponto em favor do êxito do jornalismo colaborativo no Brasil. É interessante pensar nessas diferenças entre Brasil e Coréia do Sul no que toca ao território e às culturas. Lá é um país pequeno, logo, a cultura é mais coesa e fica muito mais fácil checar a veracidade/procedência de um relato. Aqui a situação é oposta, portanto, é muito mais difícil, para um jornalista de São Paulo, por exemplo, checar se uma notícia enviada lá do Acre é verdadeira. Porém, só um país de grandes dimensões e com tamanha diversidade pode ter um noticiário colaborativo efetivamente plural. E mais: o fato de várias regiões não serem contempladas na mídia mainstream, cria a necessidade desses estados, dessas comunidades se manifestarem por outro canal. E esse canal é o noticiário colaborativo.

MD: Uma frase muito comum na Cultura Web, principalmente na época da bolha das .COM, dizia que “Não basta ter um bola-quadrada.com”, ou seja, idéias que dão certo no mundo real não podem simplesmente ser transportadas para a web. OhMyNews e Slashdot talvez venham dando tão certo justamente porque nasceram por si mesmos, isto é, vieram da vontade de um coletivo que precisava desse tipo de espaço. Podemos perceber que mundo afora, muitos portais têm aberto espaço para o Jornalismo Colaborativo, ou até mesmo para o Conteúdo Colaborativo, mas já o fazem visando o lucrto e projeção comercial. Qual a sua opinião sobre estas iniciativas genuínas (OhMyNews, Slahsdot) e adaptadas (CNN, UOL, etc)? O Jornalismo Colaborativo pode realmente ser utilizado por grandes grupos e portais já engessados nas práticas do jornalismo da velocidade e da atualização constante?

AB: Antes de tudo, um comentário: abrir espaço de conteúdo colaborativo visando lucro e projeção comercial não é pecado. Ao contrário. Como empresas que são, esses veículos precisam sobreviver e, na falta de outro modelo de sustentabilidade econômica, a publicidade ainda é fundamental. Caso contrário, como pagar os salários dos jornalistas que editam o conteúdo, tão fundamentais para esse processo? By the way, OhmyNews é uma empresa nata, com fins lucrativos e publicidade.

Sobre iniciativas genuínas versus adaptadas (adorei a tipologia!): acho muito mais difícil que um veículo de mídia tradicional, mesmo que representado na web, consiga praticar jornalismo colaborativo em essência, tal como fazem essas iniciativas genuínas. Parte da questão tu já respondestes – esses veículos estão “engessados nas práticas do jornalismo da velocidade e da atualização constante” e, certamente, o jornalismo colaborativo não funciona sob pressão. Trata-se muito mais de um conteúdo “arrevistado” do que breaking news.

Mas as restrições desses veículos mainstream vão além: eles ainda têm a visão de que o conteúdo tem de ser de propriedade da empresa que os veicula, ou seja, o cidadão repórter é obrigado a ceder todos os seus direitos de autor ao publicar um material. Isso é absolutamente contra o espírito colaborativo e à cultura horizontal que deu origem ao modelo editorial em discussão. E mais: deixam claro que os direitos autorais são da empresa, mas a responsabilidade legal do conteúdo é exclusivamente de seu autor. Ou seja, se algo der errado, toma que o filho é teu. E não venha nos cobrar royalties, caso você produza algo positivo.

Eu observo ainda uma terceira trava nestas iniciativas de jornalismo colaborativo na mídia mainstream: os jornalistas. Em geral, são pessoas com larga experiência em jornalismo tradicional e, portanto, é natural que elas tratem o público ainda como fontes, como pessoas secundárias no processo informativo e não como colegas, seres tão importantes quanto quem está no quentinho da redação.

Veículos colaborativos que nascem na rede tendem a desenvolver o trabalho de acordo com uma mentalidade própria da cultura digital, onde responsabilidades são compartilhadas, assim como os lucros; onde colaboradores são peças fundamentais no processo e jornalistas não são mais importantes do que eles; onde a informação deve ser ágil, mas nunca a ponto de prejudicar sua veracidade; onde deve haver DIÁLOGO na edição para que um conteúdo publicado seja fruto de um processo efetivo de interação.

Falo bastante disso no artigo A banalização do jornalismo colaborativo

MD: Quanto às práticas colaborativas, duas grandes correntes parecem se estabelecer nos últimos tempos: Conteúdo Colaborativo e Jornalismo Colaborativo. De fato, o Jornalismo Colaborativo não é um processo que permita a qualquer um escrever o que quiser, como algumas pessoas parecem pensar. Existe a necessidade de se acompanhar a produção de conteúdo, dar sentido e ofercer trilhas de pensamento tanto ao colaborador que escreve uma matéria quanto às pessoas que apenas lêem. Já o conteúdo colaborativo geralmente pode ser utilizado em projetos menos rigorosos quanto às consequências do que for escrito, como, por exemplo, sites de opinião e comunidades de debate de grandes temas. Recentemente discutiu-se as falhas desses modelos quando são confundidos um com o outro. Isso foi o que ocorreu num post do UOL sobre o acidente em Congonhas, tema de debate na Lista “Jornalistas da Web”. O termo Jornalismo Oba-Oba foi levantado, inclusive. O que você acha desse cenário? De quem é a culpa? E o que fazer?

AB: A discussão é complexa porque envolve inúmeras variáveis, como a presença/competência do jornalista, o fluxo editorial (como as pessoas mandam conteúdo, se há identificação do autor, tempo de edição/checagem/publicação), pretensão do espaço (trivial, jornalístico…). Mas definitivamente, “jornalismo oba-oba” é uma expressão preconceituosa e, sobretudo, maldosa, porque mostra restrições a um modelo super bem amarrado sem conhecimento de causa. Aliás, é esse desconhecimento da complexidade do jornalismo colaborativo e a afobação por “entrar na onda” 2.0 que tem criado esse cenário distorcido, em que o conteúdo produzido pelo internauta provoca equívocos.

Vejo o jornalismo colaborativo como algo muito mais difícil de ser praticado do que o jornalismo tradicional. Ele exige uma checagem muito mais aprimorada e uma atenção toda especial ao colaborador. São dois processos com que os jornalistas tradicionais não precisavam se preocupar. No entanto, agora são centrais. Ao ignorarem esses e outros comportamentos profissionais que distinguem (e complexificam) o jornalismo colaborativo do tradicional, alguns veículos cometem gafes – como a cometida pelo UOL -, justamente por achar que jornalismo colaborativo é essa onda, essa máscara de participação, onde o usuário acha que tem poder de fala mas no fundo ele é meramente usado como fonte. Trata-se de um jornalismo “de segundo plano” para esses veículos tradicionais. Ora, a natureza deles é a notícia-palestra. Eles se consagraram e ganham dinheiro com isso. Jamais vão dar ao conteúdo produzido pelo internauta o mesmo peso do que ao trabalho de seus jornalistas. Por isso entendo que um veículo que ainda trabalhe a informação sob o modelo meio-mensagem-receptor não tem que ser forçado a praticar colaboração. O mais errado disso tudo é achar que jornalismo colaborativo é algo fácil, rápido, simples e sair fazendo besteira.

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*Ana Maria Brambilla é graduada em Jornalismo, pela PUCRS e
Mestre em Comunicação e Informação, pela UFRGS

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2 comentários

  1. Achei por acaso esta preciosidade de entrevista, será referência para meu trabalho de uma matéria do curso de jornalismo que estudo. Contiue assim Ana Branbilla, ainda continuarei sendo seu dicipulo…..

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