Reflexões: Distinção Prismática

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Hoje pela manhã, como de costume, abri meu email esperando encontrar oportunidades de emprego. E como de costume também o resultado foi o mesmo dos últimos tempos: NADA.

Então, já visualizando os demais e-mails deparei-me com alguns que vivem chegando pela deliciosa lista Jornalistas da Web. Pulando de um para o outro resolvi fazer uma visita no próprio site da lista para ver quais as novidades por lá. O primeiro tópico que me apareceu na home foi convidativo: “O NOVO PROFISSIONAL: Conheça algumas habilidades inerentes ao webjornalista”. Hummm. Muito interessante. Cliquei. A matéria então era “Você sabe o que é Jornalismo Online?“, postada por Mário Cavalcanti e escrita por Bia Mansur.

Ao deparar com essa pergunta-título logo veio-me à cabeça que exatamente estas duas expressões: “Webjornalismo” e “Jornalismo Online” foram alvo de empenho teórico na produção de um trabalho acadêmico em 2006. Na escrita daquele trabalho eu e Fernanda Abras percebemos ser necessária precisa explicitação, pelo menos do ponto de vista conceitual, das diferenças entre Webjornalismo e Jornalismo Online.

O mais interessante é que fizemos essa distinção justamente por considerarmos mais prudente estabelecermos linhas guias comuns para a articulação do raciocínio sobre o próprio cenário jornalístico que se configura na web. Preocupados em não apenas demonstrarmos facetas mutáveis da web (como a análise de procedimentos dependentes de ferramentas ou programas que logo se tornam obsoletos) concentramo-nos na crítica ao modus operandi do trabalho jornalístico. Ou seja, concentramo-nos nas potenciais diferenças entre adotar a Internet como vitrine de produção e utilizá-la como mapa de trabalho.

É prática comum das das vitrines de produção injetarem vasto conteúdo usando grandes vantagens da web como a capacidade de memória e banco-de-dados para gerar imensos catálogos enciclopédicos sobre o que acontece no mundo. Apesar de seus prós e contras, estas vitrines ocuparam seu espaço e sua ausência, atualmente, chega a ser incocebível.

Mapas de trabalho, ou cartografia. Eis um termo que tornou-se cada vez mais forte à medida que desenvolvi um trabalho de Iniciação Científica com o prof. Jorge Rocha, do blog O Jornalismo Morreu. Analisando iniciativas ao redor da www, percebemos que mesmo com a forte presença do mainstream na alimentação de conteúdo, alguns projetos vinham dando certo e ganhando respeito. Sites como OhMyNews International e SlashDot foram analisados não a partir das ferramentas que utilizavam e coisas meramente funcionais. Neles percebemos que o jeito de se pensar na Comunicação estava se alterando. O papel do clássico mediador, gatekeeper, começava a perder força, uma vez que quanto mais abertos à participação os sites se tornavam, mais e mais ferramentas e outras iniciativas nasciam. Até que se consolidou de vez o termo web2.0. O jornalista agora estava em níveis semelhantes com sua audiência. Todos produziam conteúdo. Mas caos informacional não é conhecimento. Para tanto é necessário articular isso tudo. Ou ao menos fazer sugestões, como um mapa pode fazer, e um cartógrafo da informação deve fazer.

Retornando então à minha argumentação tema deste pensmento, vejo, com certo incômodo, o uso dos termos como que representantes da mesma coisa. Webjornalismo e Jornalismo Online devem ser diferenciados. Ou devemos estabelecer um termo comum para cada uma das práticas. Afinal estamos lidando com maneiras muito distintas, profundas e lapidadas de observar a Comunicação Mediada por Computadores. Há uma diferença no modo como observar a rede. Deve-se escolher através de qual prisma observar.

Já apontando para estas diferenças importantes e explicando-as brevemente, creio ser interessante também apresentar alguns pontos da matéria de Bia Mansur que me permitiram mais reflexões.

Para Bruno Rodrigues, autor de ‘Webwriting – Redação & Informação para a Web’, consultor em informação e comunicação digital, o profissional de comunicação precisa ter curiosidade por todas as mídias, tanto tradicionais quanto digitais, e uma grande vocação para lidar com a informação.

– Jornalista que não está imerso na evolução não tem futuro. Isso porque ele deve pensar o conteúdo como algo único, mas multifacetado. Sua missão é adaptar a informação às diferentes plataformas onde será veiculada – explicou. [Bruno Rodrigues]

Discordo deste ponto de vista do consultor Bruno Rodrigues. Não acredito que a missão seja esta, levando em conta a velocidade com que as conexões trabalham hoje, cada vez mais interacionais e mais baratas. A participação potente do público é questão de tempo. Então, independente da produção seguindo restrições quanto à plataforma, acredito que a missão do jornalista que pense em web2.0, seja alicerçar o que vêm de cada um das plataformas e permitir que a narrativa gerada disso seja acessível em cada uma das plataformas. Conexão fractal. A menor parte tem tudo que o todo deve ter: Teoria da Complexidade, Edgar Morin.

O certo é que, mesmo na era digital, o bom jornalista continua bom jornalista, só trabalhando mais rápido. Bia Mansur

Outro ponto que discordo. Não acredito que isso seja o “certo”. Até porque estamos vivenciando uma indefinição conceitual sobre o próprio campo por onde caminhamos. Portanto, cegos quanto ao nosso cenário, é perigoso traçar esse tipo de trilha considerando-a “salva” dos perigos das bolhas web.


Leia a matéria de Bia Mansur, para o Jornalistas da Web. Entrevistas com Bruno Rodrigues e Meira da Rocha. Pesquisadores de jornalismo online.

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1 comentário

  1. Pedro,

    Tudo bem? Parabéns pelo blog; não o conhecia, e já está em minhas bookmarks.

    Quanto ao trecho da minha entrevista, em que digo que a missão do jornalista é ‘é adaptar a informação às diferentes plataformas onde será veiculada’, vejo como sinônimo do que você disse adiante, ‘permitir que a narrativa gerada disso seja acessível em cada uma das plataformas’…

    A Bia Mansur precisou editar bastante a entrevista comigo para o ‘JW’, mas ela está na íntegra em http://bruno-rodrigues.blog.uol.com.br.

    Até!

    Bruno Rodrigues
    : Especialista em Informação para a Mídia Digital ::
    : Autor de ‘Webwriting – Redação & Informação para a Web’ ::
    : Coordenador da Pós-Graduação ‘Gestão em Marketing Digital’ das Faculdades Integradas Hélio Alonso (RJ) ::

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