Crítica aos Dez Mitos de Karl Albrecht

Em matéria da Folha lida recentemente, Karl Albrecht, especialista em coisas de empreendedorismo, futurologia dos serviços e coisas do tipo (sim, estou desdenhando sim!) foi “contemplado” com a publicação na íntegra de um dos artigos publicados por ele em seu mais recente livro (algo em torno de auto-estima de negócios).

Antes de tudo é IMPORTANTÍSSIMO que conheçamos o website deste que nos fala como se fosse o maior pensador da Era da Informação, capaz de nos dizer quais são os 10 Mitos que a humanidade celebra na e sobre a Internet. Um site com um único propósito: – vender livros de Karl Albrecht, um mito criado em torno do próprio umbigo. Confira o site deste que critica ferrenha e convictamente a rede e tire suas próprias conclusões. – SITE DA KARL ALBRECHT INTERNATIONAL –

 

Eu não conheço o trabalho de Albrecht e confesso que o tipo de reflexão que ele faz sobre a realidade fica aquém daquilo que eu estou acostumado a esperar de qualquer produção científica que tenha compromisso com o ajuste da realidade e sua consequente melhora e não tão somente observar o que acontece, de cima do muro, e ficar se alimentando das tentativas daqueles que querem mudar algo. Mas não pretendo entrar nessa discussão.

Albrecht escreveu um artigo onde ele aponta “Dez Mitos da Internet” e os critica, com ares de “Senhor Detentor da Razão”. Durante minha leitura do artigo de Albrecht eu tomei a liberdade de separar alguns de seus apontamentos e opinar também, procurando fazer uma reflexão mais coerente com a realidade e a História.

Começamos com a introdução do artigo, de onde separei o trecho abaixo:

A confluência de propagandistas da “teologia Internet”, também conhecidos como “conspiração minha-nossa!” (“Gee-Whiz”, no original), vem obtendo notável sucesso ao vender suas idéias para jornalistas, personalidades políticas e grande parte do público. Essa “teologia”, no entanto, está equivocada na essência, distorcida por filtros do pensamento tecnológico e dos valores da classe média alta. Além disso, ignora uma visão mais ampla de cultura, necessidades humanas e necessidades empresariais.

Que existe esse pensamento do “Gee-Whiz” ninguém pode negar. De fato existe muita gente por aí pregando que a “Internet” (e não os processos comunicativos mediados por computadores) é muito mais que ela realmente é. Existe, sim, uma “teologia da Internet”, mas ela não é tão predominante assim. Mais incômodo me é o fato de Albrecht fazer tão bom apontamento e terminar dizendo que as “análises lógicas” (que ele aponta como falhas) não contemplam uma “visão mais ampla de Cultura, necessidades humanas e necessidades empresariais“.

Sinceramente sou incapaz de compreender o que as necessidades empresariais têm a ver com os avanços da web. Está claro que o meio empresarial ainda é um tanto quanto “observador” do terreno. Apesar da dita “loucura pela Internet” que Albrecht aponta, é interessante perceber que são poucos os empreendimentos offline que estão “em dia” com as possibilidades e potencialidades da Internet. Isso se deve provavelmente porque no mundo material, offline, estas empresas simplesmente não viram necessidade de gastar dinheiro com o mundo virtual. Isso é um direito delas, oras, e também uma questão de “análise lógica”. Mas para o “pensador” Albrecht, parece que a percepção do cenário macro é difusa.

Também é muito estranho que Albrecht cite “valores da classe média alta e distorcidos filtros do pensamento tecnológico” como culpados pelo processo de “teologização da Internet” e, logo depois, fale de “necessidades empresariais” não vislumbradas no jeito de encarar o futuro da rede mundial de computadores. Estas necessidades empresariais servem a quem?

O avanço monstruoso da tecnologia da informação é uma afronta à capacidade de uma nação, com cenário político-econômico tempestuoso, acompanhar. Mas esta discussão é outra. Sua gênese está na produção desenfreada de hardware e periféricos e a criação de “coisas e produtos” que não fazem a menor diferença para o desenvolvimento da humanidade. Mas, para a Albrecht Internacional, talvez faça, afinal, ela se alimenta disso: disparidades geradas por um cenário tecnológico que avança mais que o mundo consegue acompanhar. Para tanto, mega-corporações contratam Albrecht para ajudar-lhes a se adequar ao que o mundo consegue assimilar.

Essa visão de Albrecht não contempla os eventos que a Internet vem permitindo acontecerem, como os sistemas colaborativos, a ampliação de redes de relacionamento e o nascimento de projetos que só se tornariam possíveis sobre a plataforma Internet. Podemos citar, por exemplo, a ANF, Agência de Notícias de Favelas, que usa a rede para algo muito além que simplesmente “vender qualidade e diferencial”, coisa de “pensamento empreendedor” e livros de auto-ajuda empresarial.

É desnecessária para os fins desta argumentação uma análise maior sobre o que é  a ANF, sua ideologia e seus propósitos. Isto demandaria um trabalho à parte. Mas seria um trabalho independente do foco deste texto. Aqui a ANF nos serve muito bem para apontar como a rede pode ser utilizada para fins que se afastam de iniciativas meramente “empresariais”.

Albrecht não compreende a rede como ambiente, e sim como ferramenta. Daí sua percepção, tipicamente capitalista, de uso descartável da comunicação mediada por computadores.

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