Mitos 01 e 02: Ocupação X Ambientação

Continuo aqui minha empreitada, discutindo os mitos que Karl Albrecht achou que mereciam ser “decifrados” por ele e seu “vasto” conhecimentos sobre a Internet. Obviamente podemos dizer que a ele faltaram não apenas critérios mais atualizados em relação à presença da rede na civilização, mas também um pouco mais de esforço intelectual em apresentar questões que fossem mais profundas em sua essência, e não meros apontamentos muito próximos de “ouvi dizer”, “disseram” e “dizem por aí”. Em parte, podemos ver que alguns mitos eleitos por ele poderiam ser substituídos ou melhor explorados. Uma sugestão que posso fazer de mito a ser discutido: “Web e Web 2.0., mudanças de estrutura e pensamento”.

Mito nº 1: todos estão usando a Internet. Os propagandistas da rede reivindicam uma população on-line de 40 milhões ou mais de pessoas. Não acredito nem por um segundo nesse número. Sem comprovação, é difícil validar qualquer alegação do gênero, embora a maioria das pessoas pareça aceitá-la sem questionamento. Isso inclui apenas as contas ativas da Internet ou todas as pessoas que possivelmente estariam conectadas? Qualquer um com um microcomputador e um modem? A família toda, se houver um micro na casa? E que padrão de atividade define um usuário? Diário? Semanal? Mensal? Uma vez na vida? Até Andrew Grove, presidente da Intel e respeitado guru da revolução digital, reconheceu que se conecta à Internet “talvez duas horas por mês”. A cobertura jornalística passa a impressão de que todo adolescente dos Estados Unidos navega pela rede. E estamos ainda longe disso.

Mito nº 2: o número de usuários crescerá sem limites. Esse é um caso claro de projeção prematura. É a mesma psicologia que impulsionou todas as ondas imobiliárias, as euforias dos mercados de ações e loucuras históricas como o “Surto das Tulipas” da Holanda da década de 1630 (veja quadro na pág. 100 com glossário) ou o “O Conto do Mar do Sul”, no Reino Unido de 1720. Nada deve ser elevado aos céus, e quem não entende o Princípio da Curva S acaba aprendendo na prática.

Nos dois primeiros mitos, Karl Albrecht limita-se a apenas fazer uma análise do volume do processo, em detrimento de compreender a capilarização das relações mediadas por computadores. O barateamento de hardware, unido a elevações no poder de compra, de fato fizeram a Classe Média entrar mais firmemente no cenário, mas, ainda existe uma grande parcela da população mundial que exige esforços muito mais materiais e imediatos que a aproximação com alta tecnologia. Isto é um fato. Mas se existem pessoas falando que “todos estão conectados” ou que “em poucos anos todos estarão”, talvez possamos desconfiar de quem são “todos” e com que finalidade.

Aproximando meu pensamento de tendências mais atuais da Rede, permito-me ser levado a pensar que as relações mediadas por computadores estão cada vez mais sólidas. Uma grande gama de serviços online hoje operam e sustentam uma série de outros processos do mundo offline. Existe uma aproximação muito mais real com a Rede que havia anos atrás. Mas, no final das contas, Albrecht preocupa-se em saber se o número de usuários crescerá exponencialmente ou não, se alguns milhões a mais ou a menos utilizam. Isto é uma questão de acesso. Assim como os celulares já o foram, e também os aparelhos de tv e serviços plus (televisão por cabo, assinatura…)

É preciso distinguir uma coisa de outra. Albrecht fala em ocupação, ou seja, a ele interessa saber quantos usam, independente do uso que façam. Para mim a contagem que interessa (se é que esse tipo de “contagem” interessa) é a de ambientação. Ambientar-se na rede é entender uma série de procedimentos próprios dela e compreendê-los não apenas mecanicamente, mas também apreender sua utilização prática para fins de socialização ou comunicação. Ambientar-se é compreender como funciona a malha da web do seu ponto de vista dinâmico, ou seja, do ponto de vista daqueles que geram um monstruoso fluxo de informações: os próprios internautas.

O que muita gente parece tentar evitar é a compreensão de que não são os sites “empresariais” que mantém a rede. Quem a mantém é a comunidade, tornando-a um bem mundial nômade. Pois basta ter acesso (que, conforme discutimos, está envolvido em uma questão fundamentalmente capitalista). Acesso permitido, a navegação é por conta de cada um, de cada comunidade e grupo de conhecidos, e de ninguém mais.

Acredito que a grande marca de volume a ser apontada seja que:
– O número de usuários cresceu muito, mas também cresceu muito (proporcionalmente) o número de pessoas que participam da tecelagem da trama, da ampliação da rede. E isso também é um fato.

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