Mito 03 e 04: Democracia e Comunidade

Karl Albrecht em: Bravatas e Ruminanças

Bem, aí vai mais um esforço quase paladinesco de criticar, de maneira áspera se necessário, a proliferação de “profetas e profecias” sobre a Era da Informação e da própria Internet. Para tanto seria vital que grandes centros de disseminação de informações, como os portais noticiosos da Folha, separassem o joio do trigo, ou seja, parassem de veicular Karl Albrecht e suas fantasias revoltadas como leitura qualificada.

Convenhamos que o material de Albrecht é escrito a partir do pensamento fantástico-reacionário que se tinha da Internet anos atrás. Palco de uma Democracia Universal e Virtual e Berço Cibernético da Emancipação dos Povos são nomes que foram, com o passar do tempo, arranjados para a Rede. Mas o mesmo “passar do tempo” se incumbiu de removê-los ou soterrá-los. Hoje sabemos todos, muito bem, que houve grande fantasia em torno do nascimento da Rede, mas o amadurecimento do processo se deu de maneira inteligente e as próprias pesquisas em torno da Comunicação Mediada por Computador discutem a Rede Mundial de Computadores por um prisma muito mais crítico e comedido.

A publicação deste material de Karl Albrecht por um site de peso como a Folha contribui para o não entendimento da Internet e de seu ambiente tecnológico. Contribui para a crítica ingênua, dissociada de análises profundas. Contribui apenas para estigmatizar a Rede sem levar em conta seu potencial para além de convenções político-sociais legitimadas no discurso pragmático de Albrecht.

Vamos aos mitos 03 e 04.

Mito nº 3: a Internet será a “grande força democratizante”. Na verdade, ela pode ter efeito exatamente oposto. Ela pode aumentar a disparidade entre os que têm e os que não têm. Apesar dos comerciais politicamente corretos que mostram uma encantadora menininha negra na África se conectando à Internet, os pobres e os desnorteados não serão alçados de suas circunstâncias econômicas pelo computador ou pela Web. Eles estão presos a um paradigma muito diferente. A visão da classe média alta de que tudo que é preciso fazer é “dar-lhes computadores” cheira novamente a Grande Sociedade. É o equivalente cibernético de “que comam brioches”.

Mito nº 4: a Internet é uma comunidade mundial.Um famoso pôster do personagem de quadrinhos Dilbert pergunta: “E se Deus for a consciência que se criará quando um número suficiente de pessoas estiver conectado à Internet?”. Esse é um pensamento fanático da mais alta perversidade e passa por todos os testes de admissão à mentalidade dos cultos religiosos. Aí está uma demonstração perturbadora da visão mundial narcisista e auto-adulatória dos que se consideram iluminados, uma irmandade especial detentora de segredos não acessíveis aos comuns dos mortais. À medida que a Internet começar a se “desconstruir” e seus clientes mais prezados forem para outro lugar na inevitável busca da qualidade, a única “comunidade” restante será a dos pervertidos, pornografistas, pedófilos, cafetões, piratas e uma miscelânea de desnorteados e descontentes.

É característico da escrita de Albrecht uma profetização de tudo. O tom é absolutista e maniqueísta. As coisas são assim e assim continuarão a ser até o fim dos tempos, nas palavras apocalípticas do vendedor de livros. Todo o discurso de Albrecht está contaminado por uma visão meramente capitalista, ao melhor estilo “meu umbigo e eu”. Quando se fala em comunicação mediada por computador, obviamente se fala de muito mais que Internet em si. Internet é o nome de um produto norte-americano, hospedado nos EUA e de alcance global que tem mudado a prática da Comunicação nos últimos tempos. No entanto, se não for na Internet, será em outro espaço. A humanidade testemunhou benefícios demais dos MCM para abrir mão deles permanentemente. Isso sim é um fato. A própria visão de Albrecht salientada em seu texto, apontando para uma “encantadora menina negra se conectando à rede na África” é fruto de um bombardeio massivo do mainstream. A falta de criticidade de Karl Albrecht é reforçadapelos exemplos que ele cita ao longo de sua análise. Albrecht esquece-se de analisar um contexto mais amplo (voluntaria ou involuntariamente) para se debruçar em críticas vazias, inspiradas por uma fase da Rede que está ficando no passado.

É ingênuo acreditar que Internet e Democracia caminhem juntas. É ingênuo imaginar que um processo político com ideais de igualdade e liberdade possa abrir mão do contato pessoal, da discussão humanística das idéias para simplesmente limitá-lo a combinações binárias. Eis o fato. Parece que Albrecht vê o mundo a partir de um foco e dele não se separa em hipótese alguma, até mesmo para se atualizar acerca das questões feitas recentemente pelos pesquisadores de nossos dias.

No mito 04, Albrecht cita Dilbert, tira criada por Scott Adams e veiculada em jornais e sites do mundo inteiro. Em Dilbert, Adams critica de maneira divertida e sagaz o “Mundo da Informação”. Já Albrecht faz uma interpretação “focada”, ou seja, uma interpretação que faz juz aos seus interesses de apenas criticar, sem se aprofundar. Prova maior é que, no episódio de Dilbert citado, ele critica o personagem pela frase “E se Deus for a consciência que se criará quando um número suficiente de pessoas estiver conectado à Internet?”. Talvez o autor não saiba, mas essa frase é escrita a partir do conto de Frederic Brown, chamado RESPOSTA, de 1954. Neste conto, os cientistas interconectam todos os computadores de todos os planetas habitados e diante daquele monstro, perguntam: “Deus existe?” O computador então responde: “Sim, agora existe!”.

Incapaz de ir além de suas bravatas, Albrecht se delicia em fazer levantamentos a partir de convenções próprias, sem citar fontes, pesquisas sérias e atuais e, ao menos, sequer, fundamentar suas opiniões.

Mais triste ainda, ante este catastrófico trabalho de “elencar Mitos da Internet” e desbravá-los de maneira ingênua, omissa, descomprometida, retrógrada e incoerente, é Karl Albrecht ser, mais uma vez, apontado pela FOLHA como texto referência sobre o assunto. Isso é cuspir na cara de tantos pesquisadores que têm feito trabalhos tão louváveis, críticos e profundos nos últimos anos, além de transformar um ambiente/ferramenta que transformou o mundo em uma simples “onda da classe média alta”.

Eis o link da Folha, onde o autor Karl Albrecht é chamado de especialista no assunto, além de ser presidente do conselho de um grupo que têm o seu nome. CLIQUE AQUI! O mais interessante é o nome da coleção: E-business e Tecnologia – Autores e Conceitos Imprescindíveis.

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